Moda para mulheres de todos os tamanhos

By Beleza Sustentável • dezembro 21st, 2009

Quem nunca se encantou com uma peça na vitrine que se tornou uma verdadeira decepção no provador? Algumas vezes ela simplesmente não cai bem, em outras, ela se revela diferente do que estávamos imaginando e, no meu caso, em muitas situações, ela simplesmente não serve. Não importa o tamanho, parece que algumas peças devem ser usadas apenas por quem tem mais de 1,70 m de altura e menos de 50 quilos. Talvez os estilistas tenham uma certa razão ao impedir, já na modelagem, que as mais baixinhas e curvilíneas usem certas peças, mas a modelo Crystal Renn entrou na briga para que as coleções não sejam só para mulheres tamanho 0 (algo como 34 no Brasil).

Autora do livro Hungry: A Young Model’s Story of Appetite, Ambition and the Ultimate Embrace of Curves (algo como “Faminta: a história do apetite, da ambição e da redenção às curvas de uma jovem modelo”), lançado esta semana, Crystal conta a pressão para perder peso e as consequências da anorexia – taquicardia, desmaios, cansaço – e lembra a morte de várias modelos americanas na busca pela magreza. Vem à minha cabeça o rosto da brasileira Ana Carolina Reston, morta aos 21 anos e 40 quilos em 1,72 m de altura.

Crystal Renn

Crystal Renn

A paranoia de Crystal começou aos 14 anos, quando um olheiro disse a ela que, se emagrecesse 30 quilos, conseguiria uma carreira de modelo em Nova York, um sonho para a garota de Clinton, no Mississippi. Logo depois de perder todo o peso, Crystal falou com o olheiro, que a levou para NY, onde ela passou a ser exercitar duas vezes por dia e a comer ainda menos. Mesmo com todo o esforço, Crystal não estava se tornando a nova Gisele, como prometera o agenciador, e sua pele estava ficando acinzentada e seu cabelo havia começado a cair.

No relato que faz ao jornal New York Post, conta o momento em que desistiu da vida de fome:

“Não posso usá-la, ela é gigante!”, gritou o fotógrafo. “Quão gorda você é?”, ele perguntou.

“Você me adorou no casting, quatro dias atrás”, balbuciei.

“Você engordou 10 quilos em quatro dias?”, disse o produtor. “Você tem que ir embora.”

Crystal não só foi embora como comeu o que não tinha colocado no prato em todos aqueles anos como modelo tamanho 0. Chegou ao tamanho 16 e estabilizou no 12. Achou que abrindo mão da dieta, teria que abrir mão também da moda, mas começou a trabalhar como modelo “plus size”, que veste tamanhos maiores. E foi só então que conquistou espaço em revistas como a Vogue e teve um vestido especial no desfile de Jean Paul Gaultier (na foto). “As mulheres são ensinadas que, se elas forem magras, suas vidas serão perfeitas. Mas a vida real não funciona dessa maneira. E estou aqui para provar”, escreve Crystal.

A história da americana tem um quê de conto de fadas – a mocinha, maltratada pelo mundo cruel da moda, dá a volta por cima – e não teria acontecido poucos anos atrás. Parece que só agora a moda, e as revistas femininas, estão mais atentas para esse público curvilíneo que sempre gostou de moda e queria consumir, mas era mantido longe das passarelas e dos editoriais.

Crystal desfilando Jean Paul Gaultier

Crystal desfilando Jean Paul Gaultier

Uma prova disso foi a comoção causada pela barriguinha de Lizzi Miller. Lizzi fez tanto sucesso entre as leitoras que vai estrelar um novo ensaio na edição de novembro da Glamour ao lado de outras seis modelos “plus size.

“Gostaria de ver todo mundo adotar mulheres de vários pesos e formas como ‘o ideal de beleza’, e não apenas um tipo ou outro”, diz Crystal. Diante do sucesso da barriguinha de Lizzi e da carreira de Crystal, fico me perguntando se, daqui a alguns anos, depois de vermos muitos ensaios, propagandas e desfiles, uma barriguinha mais saliente, uma perna mais grossa ou um colo mais generoso vão deixar de chamar tanto a nossa atenção para se tornar o que são, partes do corpo de uma mulher normal.

Você acha que as modelos “plus size” vieram para ficar ou o mundo da moda vai voltar a ser dominado por mulheres tamanho 0?

Matéria de Letícia Sorg para a Revista Época.

 

Leave a Comment

« | Home | »